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Azulejos portugueses: um guia, de Sintra ao Metro de Lisboa

2 days ago
7 min read

Em Portugal, uma parede raramente está calada.


Há cinco séculos que os portugueses vestem as paredes de barro vidrado: naves de igreja e silhares de cozinha, bancos de jardim, estações de comboio, fachadas de ruas inteiras. Os azulejos portugueses são a arte decorativa mais reconhecível do país e, para quem tem ou vende uma casa antiga, são também uma questão prática: valorizam, obrigam e protegem. Este guia acompanha o azulejo desde as origens mouriscas até ao Metro de Lisboa e explica depois como ler, datar e conservar os azulejos de uma casa. A palavra nada tem a ver com o azul: vem do árabe e quer dizer pequena pedra polida. A melhor introdução continua a ser o Museu Nacional do Azulejo.


Azulejos num prédio de 1905 na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa
Azulejos num prédio de 1905, na Rua das Janelas Verdes.

De Sevilha a Sintra

Os primeiros azulejos das paredes portuguesas vieram de Espanha. Desde a segunda metade do século XV importavam-se ladrilhos de pavimento de Manises, perto de Valência, e desde o início do século XVI oficinas de Sevilha e Toledo forneciam azulejos de revestimento feitos com duas técnicas hispano-mouriscas. Na corda-seca, finas linhas separam os vidrados de cor; na aresta, o desenho é moldado em relevo e são as arestas que fazem esse trabalho. Uma terceira técnica, o alicatado, junta peças recortadas de placas vidradas, como um mosaico.


O Palácio Nacional de Sintra mostra ainda todo o repertório: corda-seca no Pátio Central, aresta e alicatado na Capela Palatina, e um raro pavimento cerâmico mudéjar do século XV. É o sítio onde se vê começar a história portuguesa.


Pintar sobre o vidrado

No século XVI, uma técnica nova mudou tudo. A majólica, de origem italiana, permitia pintar diretamente sobre um vidrado branco de estanho, como numa tela. Em 1558, o duque de Bragança, D. Teodósio I, encomendou em Antuérpia azulejos para o paço de Vila Viçosa. Por esses anos, ceramistas flamengos fixavam-se em Lisboa e começava a produção portuguesa. A Quinta da Bacalhoa, em Azeitão, recebeu azulejos a partir de 1565 e, por volta de 1580, surgiu o retábulo de Nossa Senhora da Vida, que o museu atribui a João de Góis e que é hoje Tesouro Nacional.


Tapetes de azulejo

O século XVII fez do azulejo uma questão de repetição. A primeira resposta foi o enxaquetado, azulejos lisos de cores alternadas, assentes em xadrez, belos mas lentos e caros. Seguiu-se o azulejo de padrão: um módulo repetido ao longo da parede, de dois por dois azulejos até dezasseis por dezasseis. Estendidos por naves e refeitórios, estes padrões formaram os chamados tapetes. Cercaduras, barras e frisos emolduravam-nos, e são as mesmas palavras que ainda hoje descrevem um painel.


O azul e branco foi uma moda antes de ser uma tradição.


Azul e branco: o tempo dos mestres

Por volta de 1700, sob a influência do azulejo holandês e da porcelana chinesa, os pintores portugueses passaram ao azul sobre branco. Um pintor espanhol fixado em Portugal, Gabriel del Barco, foi dos primeiros a assinar os painéis. Veio depois o chamado Ciclo dos Mestres: António de Oliveira Bernardes, o filho Policarpo de Oliveira Bernardes, Manuel dos Santos e um pintor conhecido apenas pelas iniciais P.M.P. Os seus grandes painéis figurativos fizeram do azulejo uma pintura à escala da arquitetura.


No reinado de D. João V, a produção cresceu como nunca, ajudada por grandes encomendas vindas do Brasil. O retrato de Lisboa em azulejo, a Grande Vista de Lisboa, de cerca de 1700, está no Museu Nacional do Azulejo. Para uma quinta lisboeta desse século e os seus azulejos, leia a história da Quinta de São Sebastião, no Lumiar.


Depois do terramoto

O terramoto de 1755 pediu rapidez. Para reconstruir Lisboa, voltou-se ao azulejo de padrão, mais barato e mais rápido de assentar, numa linguagem hoje chamada pombalina, do nome do Marquês de Pombal. Em 1767, a Real Fábrica de Louça, ao Rato, foi criada para aumentar a produção cerâmica portuguesa. Muitos padrões do fim do século XVIII são-lhe atribuídos, alguns apenas com reservas.


A rua azulejada

No século XIX, o azulejo saiu para a rua. O azulejo de padrão, já o acabamento duradouro mais barato, cobriu milhares de fachadas. Novas fábricas responderam à procura, entre elas a Viúva Lamego, Sacavém, a Constância e a Roseira, na região de Lisboa. Os métodos semi-industriais ajudaram: com a estampilha, um molde recortado por onde se aplicava a cor, um padrão fazia-se mais depressa e com mais regularidade do que à mão. No Largo do Intendente, o edifício da Viúva Lamego ainda exibe o seu próprio anúncio, azulejos figurativos do diretor artístico da fábrica, conhecido como Ferreira das Tabuletas.


De onde veio a moda das fachadas azulejadas continua em discussão. José Maria dos Santos Simões, o grande historiador do azulejo, ligava as casas inteiramente azulejadas do Brasil ao clima, porque o vidrado escorre a chuva e reflete o calor; estudos mais recentes acharam a explicação demasiado simples. Certo é que as primeiras fachadas azulejadas do Brasil se vestiram com azulejo feito em Portugal.


Arte Nova, Colaço e o Metro

Por volta de 1900, o azulejo voltou a ser arte. Nas Caldas da Rainha, a Fábrica de Faianças, fundada em 1884, produziu os azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro, com padrões revivalistas, naturalistas e Arte Nova. Em Lisboa, em 1905, o dono da Fábrica Constância mandou erguer na Rua das Janelas Verdes um prédio revestido de azulejos relevados Arte Nova de Viriato Silva, uma fachada que funciona como catálogo: contámos a história em Janelas Verdes 1905. No Porto, entre 1905 e 1916, Jorge Colaço forrou o átrio da estação de São Bento com cerca de vinte mil azulejos feitos em Sacavém.


Azulejaria num apartamento do prédio das Janelas Verdes, Lapa, Lisboa
Azulejaria no prédio das Janelas Verdes, na Lapa.

O século XX não abandonou o azulejo: tornou-o público. De 1957 ao início dos anos 1970, Maria Keil desenhou painéis para as primeiras estações do Metro de Lisboa, e Querubim Lapa, Júlio Pomar e Vieira da Silva, entre outros, seguiram-na debaixo de terra. À superfície, na Avenida Infante Santo, painéis de Maria Keil, Carlos Botelho, Júlio Pomar, Alice Jorge e Sá Nogueira acompanham os blocos de habitação modernos dos anos 1950, uma história que contamos no guia dos prédios de rendimento de Lisboa, de 1930 a 1960.


Como ler os azulejos de uma casa

Algumas perguntas dão uma primeira data. O desenho está em relevo, com as cores separadas por arestas ou linhas? Pode ser hispano-mourisco, ou uma cópia posterior. Está pintado à mão livre sobre vidrado branco? É majólica, do fim do século XVI em diante, e grandes painéis a azul e branco apontam para o século XVIII. Há um pequeno módulo repetido pela fachada, com contornos de cor nítidos e algo duros? Provavelmente um padrão estampilhado do século XIX. Azulejos relevados com plantas e linhas sinuosas indicam Arte Nova; gradações de cor lisas, pulverizadas, o azulejo aerografado que Sacavém fez nos anos Art Déco.


Nenhum destes indícios é prova. Os azulejos foram copiados, reaproveitados e substituídos, por vezes na mesma parede. Um conservador-restaurador, ou os técnicos do Museu Nacional do Azulejo, datam um painel com muito mais segurança. Para quem vende, essa leitura escrita é um bom documento para juntar ao dossiê da casa.


Fonte embutida em azulejaria numa antiga quinta conventual em Marco de Canaveses
Uma fonte e os seus azulejos, numa antiga quinta conventual.

Conservar azulejos, e o que diz a lei

A primeira regra é simples: deixe-os na parede. Desde a Lei n.º 79/2017, de 18 de agosto, qualquer obra de que resulte a remoção de azulejos de fachada está sujeita a licença municipal, dê a fachada para a rua ou para o logradouro, e a câmara pode indeferi-la, salvo se os azulejos tiverem diminuto ou nulo valor patrimonial. As obras interiores que estariam isentas deixam de o estar se removerem azulejos de fachada. Lisboa já protegia as fachadas azulejadas nas suas regras municipais antes da lei nacional. O texto está publicado no Diário da República.


A lei nasceu do SOS Azulejo, projeto do Museu de Polícia Judiciária que trabalha desde 2007 contra o furto e a perda de azulejos e que recebeu o Grande Prémio Europa Nostra em 2013. Para o proprietário, as lições são práticas: fotografar e registar os azulejos, guardar os que caem e só comprar azulejo antigo com proveniência conhecida.


As reparações são trabalho de conservador-restaurador. Um estudo sobre fachadas azulejadas em Aveiro identifica os inimigos habituais, humidade ascensional, ar salino, falta de manutenção e intervenções antigas com materiais incompatíveis, e o erro mais comum: a argamassa de cimento, mais dura do que a parede antiga e irreversível. Argamassas de cal, azulejos originais recolocados e réplicas que se distinguem dos originais são o caminho certo. Se o prédio estiver classificado, como o das Janelas Verdes, as obras seguem também as regras do património: veja o nosso guia sobre comprar um imóvel classificado.


Parede de azulejos numa casa de praia em Ofir, no norte de Portugal
Azulejos numa casa junto ao mar, em Ofir.

Azulejos antigos valorizam uma casa quando estão estudados e documentados. O apartamento do prédio Janelas Verdes 1905, na Lapa, está à venda através da Wiseguys Properties, e os painéis azuis e brancos de uma quinta perto de Águeda aparecem no nosso Journal. Se tem uma casa com azulejos e pensa vendê-la, a WGP Advisors terá gosto em conversar.


Casa de banho com azulejos numa casa senhorial perto de Vila do Conde
Azulejos de uso diário, numa casa perto de Vila do Conde.

Perguntas frequentes

De onde vem a palavra azulejo?

Do árabe, onde designava uma pequena pedra polida. Não vem de azul, apesar da coincidência.


Porque são tantos azulejos portugueses azuis e brancos?

O azul e branco tornou-se a moda dominante por volta de 1700, sob a influência do azulejo holandês e da porcelana chinesa, e marcou os grandes painéis do século XVIII. Os azulejos anteriores e posteriores são muitas vezes policromos.


Posso retirar os azulejos da fachada do meu prédio?

Não sem licença municipal. A Lei n.º 79/2017 exige-a para qualquer remoção de azulejos de fachada e permite à câmara recusá-la, salvo se os azulejos tiverem diminuto ou nulo valor patrimonial.


Como sei a idade dos azulejos da minha casa?

A técnica, a cor e o padrão dão uma primeira data, mas os azulejos foram muitas vezes copiados e reaproveitados. Um conservador-restaurador ou o Museu Nacional do Azulejo fazem uma leitura segura.


Os azulejos valorizam uma casa à venda?

Quando estão em bom estado, estudados e documentados, fazem parte do carácter da casa e da sua história. Em fachadas, lembre-se de que qualquer remoção depende de licença.


Quando é o Dia Nacional do Azulejo?

A 6 de maio, por resolução da Assembleia da República de 2017.


Este artigo é informação geral e não substitui aconselhamento jurídico. Fontes: Museu Nacional do Azulejo; Parques de Sintra, Palácio Nacional de Sintra; Turismo de Lisboa, Rota do Azulejo; Património Cultural, Tesauro SIPA; Lei n.º 79/2017, de 18 de agosto; Resolução da Assembleia da República n.º 144/2017; Europa Nostra, SOS Azulejo (2013); Museu Bordalo Pinheiro; S. Moutinho e A. Velosa, Conservar Património 41 (2022); J. M. dos Santos Simões e J. Meco, histórias do azulejo português. Fotografias: Wiseguys Properties.

 
 
 
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