Azulejos portugueses: um guia, de Sintra ao Metro de Lisboa
Em Portugal, uma parede raramente está calada.
Há cinco séculos que os portugueses vestem as paredes de barro vidrado: naves de igreja e silhares de cozinha, bancos de jardim, estações de comboio, fachadas de ruas inteiras. Os azulejos portugueses são a arte decorativa mais reconhecível do país e, para quem tem ou vende uma casa antiga, são também uma questão prática: valorizam, obrigam e protegem. Este guia acompanha o azulejo desde as origens mouriscas até ao Metro de Lisboa e explica depois como ler, datar e conservar os azulejos de uma casa. A palavra nada tem a ver com o azul: vem do árabe e quer dizer pequena pedra polida. A melhor introdução continua a ser o Museu Nacional do Azulejo.

De Sevilha a Sintra
Os primeiros azulejos das paredes portuguesas vieram de Espanha. Desde a segunda metade do século XV importavam-se ladrilhos de pavimento de Manises, perto de Valência, e desde o início do século XVI oficinas de Sevilha e Toledo forneciam azulejos de revestimento feitos com duas técnicas hispano-mouriscas. Na corda-seca, finas linhas separam os vidrados de cor; na aresta, o desenho é moldado em relevo e são as arestas que fazem esse trabalho. Uma terceira técnica, o alicatado, junta peças recortadas de placas vidradas, como um mosaico.
O Palácio Nacional de Sintra mostra ainda todo o repertório: corda-seca no Pátio Central, aresta e alicatado na Capela Palatina, e um raro pavimento cerâmico mudéjar do século XV. É o sítio onde se vê começar a história portuguesa.
Pintar sobre o vidrado
No século XVI, uma técnica nova mudou tudo. A majólica, de origem italiana, permitia pintar diretamente sobre um vidrado branco de estanho, como numa tela. Em 1558, o duque de Bragança, D. Teodósio I, encomendou em Antuérpia azulejos para o paço de Vila Viçosa. Por esses anos, ceramistas flamengos fixavam-se em Lisboa e começava a produção portuguesa. A Quinta da Bacalhoa, em Azeitão, recebeu azulejos a partir de 1565 e, por volta de 1580, surgiu o retábulo de Nossa Senhora da Vida, que o museu atribui a João de Góis e que é hoje Tesouro Nacional.
Tapetes de azulejo
O século XVII fez do azulejo uma questão de repetição. A primeira resposta foi o enxaquetado, azulejos lisos de cores alternadas, assentes em xadrez, belos mas lentos e caros. Seguiu-se o azulejo de padrão: um módulo repetido ao longo da parede, de dois por dois azulejos até dezasseis por dezasseis. Estendidos por naves e refeitórios, estes padrões formaram os chamados tapetes. Cercaduras, barras e frisos emolduravam-nos, e são as mesmas palavras que ainda hoje descrevem um painel.
O azul e branco foi uma moda antes de ser uma tradição.
Azul e branco: o tempo dos mestres
Por volta de 1700, sob a influência do azulejo holandês e da porcelana chinesa, os pintores portugueses passaram ao azul sobre branco. Um pintor espanhol fixado em Portugal, Gabriel del Barco, foi dos primeiros a assinar os painéis. Veio depois o chamado Ciclo dos Mestres: António de Oliveira Bernardes, o filho Policarpo de Oliveira Bernardes, Manuel dos Santos e um pintor conhecido apenas pelas iniciais P.M.P. Os seus grandes painéis figurativos fizeram do azulejo uma pintura à escala da arquitetura.
No reinado de D. João V, a produção cresceu como nunca, ajudada por grandes encomendas vindas do Brasil. O retrato de Lisboa em azulejo, a Grande Vista de Lisboa, de cerca de 1700, está no Museu Nacional do Azulejo. Para uma quinta lisboeta desse século e os seus azulejos, leia a história da Quinta de São Sebastião, no Lumiar.
Depois do terramoto
O terramoto de 1755 pediu rapidez. Para reconstruir Lisboa, voltou-se ao azulejo de padrão, mais barato e mais rápido de assentar, numa linguagem hoje chamada pombalina, do nome do Marquês de Pombal. Em 1767, a Real Fábrica de Louça, ao Rato, foi criada para aumentar a produção cerâmica portuguesa. Muitos padrões do fim do século XVIII são-lhe atribuídos, alguns apenas com reservas.
A rua azulejada
No século XIX, o azulejo saiu para a rua. O azulejo de padrão, já o acabamento duradouro mais barato, cobriu milhares de fachadas. Novas fábricas responderam à procura, entre elas a Viúva Lamego, Sacavém, a Constância e a Roseira, na região de Lisboa. Os métodos semi-industriais ajudaram: com a estampilha, um molde recortado por onde se aplicava a cor, um padrão fazia-se mais depressa e com mais regularidade do que à mão. No Largo do Intendente, o edifício da Viúva Lamego ainda exibe o seu próprio anúncio, azulejos figurativos do diretor artístico da fábrica, conhecido como Ferreira das Tabuletas.
De onde veio a moda das fachadas azulejadas continua em discussão. José Maria dos Santos Simões, o grande historiador do azulejo, ligava as casas inteiramente azulejadas do Brasil ao clima, porque o vidrado escorre a chuva e reflete o calor; estudos mais recentes acharam a explicação demasiado simples. Certo é que as primeiras fachadas azulejadas do Brasil se vestiram com azulejo feito em Portugal.
Arte Nova, Colaço e o Metro
Por volta de 1900, o azulejo voltou a ser arte. Nas Caldas da Rainha, a Fábrica de Faianças, fundada em 1884, produziu os azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro, com padrões revivalistas, naturalistas e Arte Nova. Em Lisboa, em 1905, o dono da Fábrica Constância mandou erguer na Rua das Janelas Verdes um prédio revestido de azulejos relevados Arte Nova de Viriato Silva, uma fachada que funciona como catálogo: contámos a história em Janelas Verdes 1905. No Porto, entre 1905 e 1916, Jorge Colaço forrou o átrio da estação de São Bento com cerca de vinte mil azulejos feitos em Sacavém.

O século XX não abandonou o azulejo: tornou-o público. De 1957 ao início dos anos 1970, Maria Keil desenhou painéis para as primeiras estações do Metro de Lisboa, e Querubim Lapa, Júlio Pomar e Vieira da Silva, entre outros, seguiram-na debaixo de terra. À superfície, na Avenida Infante Santo, painéis de Maria Keil, Carlos Botelho, Júlio Pomar, Alice Jorge e Sá Nogueira acompanham os blocos de habitação modernos dos anos 1950, uma história que contamos no guia dos prédios de rendimento de Lisboa, de 1930 a 1960.
Como ler os azulejos de uma casa
Algumas perguntas dão uma primeira data. O desenho está em relevo, com as cores separadas por arestas ou linhas? Pode ser hispano-mourisco, ou uma cópia posterior. Está pintado à mão livre sobre vidrado branco? É majólica, do fim do século XVI em diante, e grandes painéis a azul e branco apontam para o século XVIII. Há um pequeno módulo repetido pela fachada, com contornos de cor nítidos e algo duros? Provavelmente um padrão estampilhado do século XIX. Azulejos relevados com plantas e linhas sinuosas indicam Arte Nova; gradações de cor lisas, pulverizadas, o azulejo aerografado que Sacavém fez nos anos Art Déco.
Nenhum destes indícios é prova. Os azulejos foram copiados, reaproveitados e substituídos, por vezes na mesma parede. Um conservador-restaurador, ou os técnicos do Museu Nacional do Azulejo, datam um painel com muito mais segurança. Para quem vende, essa leitura escrita é um bom documento para juntar ao dossiê da casa.

Conservar azulejos, e o que diz a lei
A primeira regra é simples: deixe-os na parede. Desde a Lei n.º 79/2017, de 18 de agosto, qualquer obra de que resulte a remoção de azulejos de fachada está sujeita a licença municipal, dê a fachada para a rua ou para o logradouro, e a câmara pode indeferi-la, salvo se os azulejos tiverem diminuto ou nulo valor patrimonial. As obras interiores que estariam isentas deixam de o estar se removerem azulejos de fachada. Lisboa já protegia as fachadas azulejadas nas suas regras municipais antes da lei nacional. O texto está publicado no Diário da República.
A lei nasceu do SOS Azulejo, projeto do Museu de Polícia Judiciária que trabalha desde 2007 contra o furto e a perda de azulejos e que recebeu o Grande Prémio Europa Nostra em 2013. Para o proprietário, as lições são práticas: fotografar e registar os azulejos, guardar os que caem e só comprar azulejo antigo com proveniência conhecida.
As reparações são trabalho de conservador-restaurador. Um estudo sobre fachadas azulejadas em Aveiro identifica os inimigos habituais, humidade ascensional, ar salino, falta de manutenção e intervenções antigas com materiais incompatíveis, e o erro mais comum: a argamassa de cimento, mais dura do que a parede antiga e irreversível. Argamassas de cal, azulejos originais recolocados e réplicas que se distinguem dos originais são o caminho certo. Se o prédio estiver classificado, como o das Janelas Verdes, as obras seguem também as regras do património: veja o nosso guia sobre comprar um imóvel classificado.

Azulejos antigos valorizam uma casa quando estão estudados e documentados. O apartamento do prédio Janelas Verdes 1905, na Lapa, está à venda através da Wiseguys Properties, e os painéis azuis e brancos de uma quinta perto de Águeda aparecem no nosso Journal. Se tem uma casa com azulejos e pensa vendê-la, a WGP Advisors terá gosto em conversar.

Perguntas frequentes
De onde vem a palavra azulejo?
Do árabe, onde designava uma pequena pedra polida. Não vem de azul, apesar da coincidência.
Porque são tantos azulejos portugueses azuis e brancos?
O azul e branco tornou-se a moda dominante por volta de 1700, sob a influência do azulejo holandês e da porcelana chinesa, e marcou os grandes painéis do século XVIII. Os azulejos anteriores e posteriores são muitas vezes policromos.
Posso retirar os azulejos da fachada do meu prédio?
Não sem licença municipal. A Lei n.º 79/2017 exige-a para qualquer remoção de azulejos de fachada e permite à câmara recusá-la, salvo se os azulejos tiverem diminuto ou nulo valor patrimonial.
Como sei a idade dos azulejos da minha casa?
A técnica, a cor e o padrão dão uma primeira data, mas os azulejos foram muitas vezes copiados e reaproveitados. Um conservador-restaurador ou o Museu Nacional do Azulejo fazem uma leitura segura.
Os azulejos valorizam uma casa à venda?
Quando estão em bom estado, estudados e documentados, fazem parte do carácter da casa e da sua história. Em fachadas, lembre-se de que qualquer remoção depende de licença.
Quando é o Dia Nacional do Azulejo?
A 6 de maio, por resolução da Assembleia da República de 2017.
Este artigo é informação geral e não substitui aconselhamento jurídico. Fontes: Museu Nacional do Azulejo; Parques de Sintra, Palácio Nacional de Sintra; Turismo de Lisboa, Rota do Azulejo; Património Cultural, Tesauro SIPA; Lei n.º 79/2017, de 18 de agosto; Resolução da Assembleia da República n.º 144/2017; Europa Nostra, SOS Azulejo (2013); Museu Bordalo Pinheiro; S. Moutinho e A. Velosa, Conservar Património 41 (2022); J. M. dos Santos Simões e J. Meco, histórias do azulejo português. Fotografias: Wiseguys Properties.
