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A casa no caminho romano: uma casa de granito na Campeã, Vila Real

3 days ago
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Updated: 2 days ago

Antes da casa, havia a estrada.


A Campeã fica a 727 metros, na encosta nascente do Marão, a serra que durante dois mil anos se interpôs entre o Porto e Trás-os-Montes. Quem a atravessava passava por aqui: agrimensores romanos, peregrinos medievais, almocreves com sal e peixe seco, os soldados de Napoleão. No coração da aldeia, entre o terreiro do povo e o caminho da igreja, ergue-se uma casa de granito. A rua que lhe passa ao lado ainda se chama Caminho Romano.


Casa de granito na Campeã, Vila Real, com fachada de dupla frente e escada exterior em pedra
A casa na Campeã: granito aparelhado, paredes com cerca de sessenta centímetros, dupla frente voltada à aldeia.

A estrada da serra

O arqueólogo Pedro Soutinho reconstituiu a via que subia do Tâmega e atravessava o Marão, de Bracara Augusta, a Braga romana, em direção ao Douro. No Vale da Campeã cruzava-se com uma segunda via, vinda de Chaves, e as duas voltavam a separar-se rumo às passagens do rio em Moledo e na Régua. O traçado é provavelmente anterior a Roma: há sítios neolíticos e da Idade do Ferro ao longo do percurso.


Soutinho admite uma possível mutatio, uma estação de muda romana, nas Vendas da Campeã, junto à capela de São Roque. O topónimo diz o resto. Vendas eram estalagens, e em 1134 D. Afonso Henriques, que poucos anos depois seria o primeiro rei de Portugal, coutou a albergaria do Marão, um abrigo de viajantes que existia na Campeã.


Arco memorial medieval em granito sobre a calçada romano-medieval da Campeã, Vila Real
O arco de granito sobre a velha estrada da Campeã, classificado em 2026, com a calçada e o cruzeiro, como património de interesse municipal. Fotografia: Câmara Municipal de Vila Real.

Um arco para os mortos

Na Campeã sobrevive um troço da velha calçada, a Calçada do Arco, que deve o nome ao que se ergue sobre ela: um arco de granito que nada tem de romano. Segundo o historiador Vítor Nogueira, foi construído na Baixa Idade Média com uma função sepulcral e memorativa. Os arcos memoriais medievais estão entre os monumentos mais raros do país; restam poucos de pé, entre eles os memoriais da Ermida, de Sobrado e de Alpendorada, sempre à beira de estradas antigas.


Em 2026, o Município de Vila Real classificou o conjunto como património de interesse municipal: a calçada romano-medieval, o arco memorial e um cruzeiro setecentista do Senhor da Boa Hora. Uma estrada, um túmulo e uma oração, em poucas centenas de metros de granito.


Uma estrada, um túmulo e uma oração.


A estrada mais áspera da província

O Marão nunca facilitou a vida a ninguém. Em 1796 a estrada foi descrita como a mais áspera da província. Em maio de 1809, na segunda invasão francesa, combateu-se na subida de Amarante, e os portugueses cortaram a estrada mais recente para atrasar as tropas do marechal Soult, devolvendo o trânsito à antiga. Em 1873, o historiador Pinho Leal escrevia sobre viajantes mortos na neve entre a Campeã e Ovelha. Alugavam-se bois para puxar as diligências na subida, e a descida podia ser mais rápida do que se desejava.


A nova estrada real da década de 1860 suavizou as rampas e, no fim do século, a linha do Douro levou o movimento para longe da serra. A Campeã guardou o nome das estalagens, as capelas e o granito, e tornou-se no que é hoje: uma aldeia de pedra no alto da subida.



No Marão, cada casa antiga é uma casa à beira da estrada.


Uma casa de granito no terreiro

A casa pertence à tradição mais antiga de Trás-os-Montes: a loja em baixo, para os animais, os carros e as colheitas, e a família em cima. Já constava dos registos prediais na década de 1930, e a descrição na Conservatória dá-a a confrontar com o terreiro do povo a norte e com o caminho da igreja a sul. É construída em granito aparelhado, com paredes de cerca de sessenta centímetros.


No andar de cima, a casa ganha elegância. Janelas de guilhotina e portas envidraçadas abrem para varandas de ferro, os tetos conservam os estuques originais e os fogões de sala de época marcam as divisões principais. Num dos salões, uma fonte está embutida na parede de pedra.


Salão com fonte embutida na parede de pedra, lareira e janelas altas numa casa de granito na Campeã
Um salão com uma fonte embutida na parede de pedra.

Sala com estuques originais, paredes verde-claro e portas envidraçadas na Campeã, Vila Real
Estuques originais, paredes verde-claro e portas envidraçadas para as varandas de ferro.

Nas traseiras, a antiga cozinha mantém as asnas do telhado à vista e a escala de uma casa de trabalho, onde se cozia o pão e se passavam os invernos junto ao lume.


Antiga cozinha com asnas de madeira à vista numa casa de granito tradicional na Campeã
A antiga cozinha, aberta até às asnas de madeira.

A casa hoje

Os atuais proprietários compraram a casa para a recuperar, e o trabalho já começou: soalhos restaurados divisão a divisão, o essencial reposto. A casa principal tem cerca de 767 m² de área bruta de construção, num terreno com cerca de 2.700 m², dos quais mais de 2.000 m² de jardim maduro, terraços e piscina. Duas pequenas casas de pedra no terreno, hoje em ruína, esperam um uso: casa de hóspedes, atelier. O resto é uma questão de gosto e de tempo.


A casa está à venda através da Wiseguys Properties: veja Old Stone House. Para outra casa do Norte com a história escrita no granito, leia A Casa do Comendador.


Perguntas frequentes

Existe uma calçada romana na Campeã?

Sim. Os arqueólogos traçam a via romana de Braga ao Douro através do Marão e do Vale da Campeã. Na aldeia sobrevive um troço empedrado, a Calçada do Arco, descrito como romano-medieval.


O que é o arco da Campeã?

Um arco memorial em granito, construído na Baixa Idade Média com função sepulcral e memorativa, segundo o historiador Vítor Nogueira. Restam muito poucos arcos memoriais medievais em Portugal.


O conjunto está protegido?

Sim. Em 2026, o Município de Vila Real classificou a calçada, o arco e o cruzeiro setecentista do Senhor da Boa Hora como património de interesse municipal.


Que idade tem a casa?

Já constava dos registos prediais na década de 1930 e pode ser mais antiga. É construída em granito aparelhado, na forma tradicional transmontana de loja e primeiro andar.


A casa está à venda?

Sim, através da Wiseguys Properties, com o nome Old Stone House.



Fontes: Pedro Soutinho, "A Serra do Marão na rede viária romana", em Povoamento e vias de comunicação ao longo da História, vol. 1, Biblioteca Municipal de Vila Real (2021); Vítor Nogueira, Seis calçadas lajeadas do concelho de Vila Real, citado pela Câmara Municipal de Vila Real e pela Lusa (2026); Vias Romanas em Portugal, "Calçada do Arco em Campeã" (2020); Rota do Românico, Memorial da Ermida; A. Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno (1873). Fotografia: Wiseguys Properties; arco: Câmara Municipal de Vila Real.

 
 
 
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