Revelar, não reescrever: o República 48 de Francisco Tojal
Neste apartamento de Lisboa, o primeiro gesto foi tirar.
Na Avenida da República, nas Avenidas Novas, a poucos passos do Campo Pequeno, um apartamento de 200 m² passou quatro anos nas mãos de um arquiteto. O resultado, o República 48, não é uma montra. É uma lição de contenção: o que estava escondido foi revelado, o que estorvava saiu, e o que ficou é luz, proporção e meia dúzia de materiais honestos.

Do atelier de John Pawson para Lisboa
Francisco Tojal estudou Arquitetura na Universidade Lusíada de Lisboa. Entre 2015 e 2017 trabalhou em Londres no atelier de John Pawson, o arquiteto britânico cujo nome se tornou sinónimo de minimalismo, nas equipas do novo Design Museum, em Kensington, e do The Oaks, um hotel e spa na República Checa. Em 2018 fundou o seu atelier em Lisboa, a Francisco Tojal Arquitectos, que trabalha sobretudo em casas e apartamentos, muitos deles em Lisboa e Cascais.
No República 48, a equipa de projeto foi Francisco Tojal e Ana Pinto. A obra durou quatro anos.
Menos como método, não como estilo.
Uma avenida com passado
A Avenida da República foi a espinha dorsal das Avenidas Novas, a expansão de Lisboa para norte na viragem do século XX. Até à República de 1910 teve o nome de Ressano Garcia, o engenheiro autor do plano. As primeiras casas ganharam prémios de arquitetura: o Palacete Valmor, de Ventura Terra, foi projetado em 1906, e o número 49 recebeu o Prémio Valmor em 1923. O número 48 é um prédio de varandas e átrio de mármore, a curta distância da praça de touros do Campo Pequeno.

O que se encontrou
A obra começou por olhar. Em vez de reescrever o apartamento, o projeto devolveu à vista pormenores esquecidos, entre eles o elevador original do prédio. Onde era preciso algo novo, entrou a pedra lioz, o calcário claro da região de Lisboa, cheio de conchas fósseis com cerca de 120 milhões de anos, há muito chamado pedra real pelo uso em igrejas e palácios e reconhecido como Global Heritage Stone Resource.

Arquitetura não como espetáculo, mas como forma de viver.
Divisões sem nada a provar
O apartamento organiza-se em três quartos, cada um com casa de banho própria, e uma quarta casa de banho para visitas. Cinco roupeiros estão embutidos nas paredes para que as divisões fiquem limpas. No corredor, uma porta escondida no lambrim abre para a lavandaria. A cozinha foi redesenhada de raiz, em madeira clara, com uma coluna alta de armários e prateleiras abertas.



A luz faz o resto. Janelas altas, paredes brancas e soalho deixam as divisões mudar ao longo do dia; os materiais são poucos e naturais; os pormenores, discretos. As casas de banho jogam com o contraste, do mármore verde-escuro à pedra clara.



O apartamento hoje
O República 48 foi vendido através da Wiseguys Properties: veja a página do apartamento. Para outra casa de arquiteto português no Journal, leia sobre a Maison Moderne de Fernão Simões de Carvalho.
Perguntas frequentes
Quem é Francisco Tojal?
Um arquiteto português que trabalhou no atelier londrino de John Pawson entre 2015 e 2017 e fundou a Francisco Tojal Arquitectos em Lisboa, em 2018.
Onde fica o República 48?
Na Avenida da República, nas Avenidas Novas de Lisboa, perto do Campo Pequeno.
O que é a pedra lioz?
Um calcário claro da região de Lisboa, rico em conchas fósseis, historicamente chamado pedra real e reconhecido como Global Heritage Stone Resource.
O que mudou com a obra?
Em quatro anos revelou pormenores originais como o elevador do prédio, acrescentou intervenções em lioz, embutiu cinco roupeiros, escondeu a lavandaria atrás do lambrim e redesenhou a cozinha.
O apartamento está à venda?
Não. O República 48 foi vendido através da Wiseguys Properties.
Para ler a seguir: Bairros de Lisboa: onde viver, lidos pela arquitetura e Prédios de rendimento em Lisboa: do Art Déco ao moderno, 1930 a 1960.
Fontes: Francisco Tojal Arquitectos (franciscotojal.com); Wikipédia, Avenida da República (Lisboa) e Lioz; Património Cultural, Palacete Valmor. Fotografias: Wiseguys Properties.
