Maison Moderne — a casa modernista de Fernão Simões de Carvalho
Updated: 2 days ago
Da estrada não se vê nada. Pinheiros, eucaliptos, um portão.
Depois o terreno abre-se e a casa está lá em baixo — comprida, baixa e branca contra a encosta, o telhado a avançar para lá do vidro e, mais além, a albufeira de Castelo de Bode, lisa e prateada entre os montes. Esta casa modernista foi desenhada em 1971 por um homem que passara a vida a desenhar cidades.

Fernão Simões de Carvalho nasceu em Luanda em 1929, filho de portugueses que tinham chegado à cidade nove anos antes. Formou-se nas Belas-Artes, em Lisboa, e aos vinte e seis anos partiu para Paris — quatro anos no atelier de Le Corbusier, no número 35 da rue de Sèvres, ao lado de André Wogenscky, e urbanismo na Sorbonne com Robert Auzelle.
Regressou e desenhou uma cidade. O plano diretor de Luanda. O centro de radiodifusão angolano. A unidade de vizinhança do Prenda — uma proposta de como cinquenta mil pessoas poderiam viver bem num musseque, construída entre 1963 e 1965 e estudada desde então. Depois, Olivais e Chelas, em Lisboa, e planos urbanísticos no Brasil.
Casas, raramente as fez.

Esta, implantou-a numa cumeada, e tudo nela se organiza em função da queda do terreno. A sala tem pé-direito duplo e desce em patamares, de modo que, no nível mais baixo, se olha para fora e não para baixo. Os envidraçados são longos e horizontais, em caixilhos tão finos que desaparecem. Os tetos são forrados a madeira quente e prolongam-se para lá do vidro até aos beirados — o gesto mais antigo do modernismo para trazer o exterior para dentro, e continua a resultar. O tijolo fica à vista. A chaminé ergue-se, solta do telhado, como uma escultura.

«Uma vida em que o desenho da cidade nunca se separou das pessoas que nela iriam viver.»
Ordem dos Arquitectos, citação do prémio de carreira, maio de 2026

O prémio foi-lhe entregue a 30 de maio deste ano, em Óbidos. Morreu a 8 de setembro, aos noventa e seis anos.
A sua obra pública está documentada, e a casa-atelier que tinha em Queijas é admirada. As outras casas, não. Não existe um catálogo delas e, como é costume, uma casa particular muda de mãos sem que ninguém repare em quem a desenhou.

Esta ficou na mesma família desde que foi construída. Foi restaurada com cuidado e, mais importante, restaurada sem ser corrigida. As divisões são as que foram desenhadas.

Fotografia: Wiseguys Properties. A Maison Moderne é representada pela Wiseguys Properties — info@wgpadvisors.com
Fontes: Ordem dos Arquitectos, Prémio Carreira 2026, Fernão Simões de Carvalho; Observador e Renascença (8 de setembro de 2026); INHA e Fondation Marta Pan & André Wogenscky, sobre André Wogenscky; Getty Research Institute, arquivo Lucien Hervé, sobre o atelier do 35 rue de Sèvres.
