top of page

Comporta e Melides: arrozais, colmo e a costa alentejana

2 days ago
5 min read

Antes de ser um estilo, a Comporta foi uma herdade de arroz.


A sul de Lisboa, depois da península de Tróia e do estuário do Sado, uma costa baixa de dunas, pinhal e arrozais desce até Melides. A Comporta deu nome a tudo isto, e a uma certa ideia de verão. Mas o lugar merece uma leitura mais lenta: uma herdade agrícola com séculos de história, um punhado de aldeias, uma arquitetura de caniço e colmo, algumas casas contemporâneas notáveis e, desde janeiro de 2025, um dos regimes de ordenamento turístico mais exigentes do litoral português. Este guia reúne o que convém saber, e verificar, antes de comprar ou vender na Comporta ou em Melides.


Dois concelhos, um rosário de aldeias

A Comporta é, antes de mais, uma freguesia de Alcácer do Sal, na base da península de Tróia, à beira do estuário do Sado. Inclui a própria Comporta, a Carrasqueira, a Torre, o Possanco e os dois Brejos da Carregueira. Para sul, a costa entra no concelho de Grândola, com as freguesias do Carvalhal, onde fica o Pego, e de Melides. Aquilo a que o mercado chama Comporta reparte-se, portanto, por dois concelhos, cada um com o seu PDM e os seus serviços de urbanismo.


Melides fecha o troço a sul. A lagoa está separada do Atlântico por uma barra de areia, que a Agência Portuguesa do Ambiente abre ao mar uma vez por ano, no âmbito de um plano anual, para renovar a água da lagoa.


Casas de hóspedes em madeira entre oliveiras numa propriedade rural em Melides, Grândola
Melides: oliveiras, pinhal e construções baixas de madeira.

Uma herdade de arroz

A Herdade da Comporta tem cerca de 12.500 hectares. Pertenceu à Casa de Aveiro e depois à Casa do Infantado e, em 1836, foi vendida à Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado. Em 1925 passou para a Atlantic Company, uma sociedade de capital britânico registada em Jersey. O arroz fora tentado desde o século XVIII, mas foi a Atlantic Company que fez dele a cultura da herdade. Substituiu também as cubatas, as cabanas de colmo onde viviam os trabalhadores, por casas com melhores condições, e construiu celeiros, escritórios e uma escola. A fábrica de descasque de arroz de 1952 é hoje o Museu do Arroz.


Em 1955 a herdade foi comprada pela família Espírito Santo. Depois da queda do grupo, em 2014, os ativos do fundo imobiliário da herdade foram vendidos, com escritura assinada em novembro de 2019 com um consórcio liderado pela Vanguard Properties e pela Amorim Luxury. Os arrozais continuam, e a escala também: grande parte da terra em volta das aldeias pertence a poucas herdades.


Caniço, colmo e madeira: a costa construiu-se com o que nela crescia.


Colmo, caniço e estacas

A arquitetura popular daqui é leve. Pescadores e trabalhadores do arroz construíam com estruturas de madeira, caniço e palha, e a cobertura de colmo é a imagem que a região guardou de si. Na Carrasqueira, sobre o estuário, a comunidade piscatória construiu à mão, nos anos 1950 e 1960, um cais sobre estacas de madeira irregulares, um labirinto de passadiços e pontões para os barcos. Ainda o usam cerca de cinquenta pescadores. Os temporais do início de 2026 destruíram-no em parte, e a associação de pescadores e a junta de freguesia pediram ajuda para o reconstruir.


Duas obras de Aires Mateus

Dois pequenos projetos fizeram muito para dar a conhecer lá fora a arquitetura desta costa. As Casas na Areia, perto da Comporta, concluídas em 2010 por Manuel e Francisco Aires Mateus, transformaram um conjunto de antigas casas de pescadores em quatro volumes: dois de alvenaria, dois revestidos a madeira. As coberturas são de colmo, em camadas de palha presas por tábuas, uma técnica tradicional desta costa atlântica, e a areia é o chão do pavilhão comum. O projeto esteve na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2010. Em 2013, o mesmo atelier construiu as Cabanas no Rio, duas cabanas com 26 m² no total junto a um cais, em madeira reaproveitada e deixada à vista.


O que estas casas partilham com as antigas é a contenção: volumes baixos, materiais naturais, pouco terreno tirado às dunas e ao pinhal. É uma boa medida para quem pensa reabilitar ou construir aqui.


Pequena casa de madeira numa propriedade de turismo rural em Melides, costa alentejana
Madeira, volumes baixos e leves, à maneira da costa.

O que verificar antes de comprar

Boa parte do território está protegida. As dunas e o pinhal entre a Comporta e a Galé integram um sítio da Rede Natura 2000, a ZEC Comporta-Galé, e o estuário do Sado é reserva natural desde 1980. Os terrenos podem estar também em Reserva Ecológica Nacional (REN) ou Reserva Agrícola Nacional (RAN), que restringem a construção. Peça à câmara a situação urbanística de cada prédio antes de assinar o que quer que seja.


Do lado de Grândola, a primeira alteração ao PDM entrou em vigor em janeiro de 2025 (Aviso n.º 1869/2025/2). Criou uma Zona de Elevada Pressão Turística no litoral, em torno do Carvalhal e de Melides, onde os únicos novos empreendimentos turísticos isolados admitidos são parques de campismo e caravanismo. Proibiu também novos Núcleos de Desenvolvimento Turístico e fixou um regime transitório para os pedidos pendentes. Os termos de referência da alteração explicam as razões. Na prática, aqui uma licença já concedida vale muito mais do que uma intenção de construir.


Verifique, edifício a edifício, para que está licenciado: habitação, turismo no espaço rural ou alojamento local são coisas diferentes, com regras diferentes (veja a nossa nota sobre alojamento local e turismo rural). Verifique a água, muitas vezes de furo próprio, e o saneamento. Para a compra em si, veja o nosso guia comprar casa em Portugal, passo a passo e, para uma propriedade com vários edifícios, o guia sobre aldeias à venda.


Quarto revestido a madeira numa casa de hóspedes de uma propriedade em Melides
Dentro de uma caseta: paredes de madeira e cama.

As estações

A costa vive do verão. Julho e agosto enchem as praias, os restaurantes e a estrada de Lisboa; o resto do ano é mais calmo, e os arrozais, o estuário e o pinhal voltam ao primeiro plano. Para quem compra, e para quem vende, contam as duas estações: uma põe à prova os acessos e a privacidade, a outra mostra se a casa funciona para viver, ou para receber hóspedes fora das semanas altas.


Piscina com espreguiçadeiras entre oliveiras numa propriedade em Melides, perto da Comporta
A piscina, entre as oliveiras.

A Wiseguys Properties tem à venda as Casetas de Melides: 12.695 m² de terreno com oliveiras, uma casa T3 licenciada, seis casetas independentes de madeira, um pavilhão de cozinha comum e uma piscina de 12,5 metros, a cerca de 7 km das praias da Galé e da Aberta Nova. Para outra casa junto ao Atlântico, leia sobre a moradia das Areias do Seixo. Se tem um imóvel nesta costa e pensa vender, fale connosco.


Perguntas frequentes

Onde fica a Comporta?

Na costa alentejana, a sul de Lisboa, na base da península de Tróia. A Comporta é freguesia de Alcácer do Sal; o Carvalhal e Melides, mais a sul, pertencem a Grândola.


Quem é o dono da Herdade da Comporta?

A herdade pertenceu à família Espírito Santo a partir de 1955. Em novembro de 2019, os ativos do seu fundo imobiliário foram vendidos a um consórcio liderado pela Vanguard Properties e pela Amorim Luxury.


Pode construir-se na Comporta e em Melides?

Depende de cada prédio. A Rede Natura 2000, a REN e a RAN restringem a construção e, desde janeiro de 2025, o PDM de Grândola limita novos empreendimentos turísticos no Carvalhal e em Melides. Pergunte primeiro à câmara.


Posso ter turismo rural ou alojamento local em Melides?

Só com a licença certa para cada edifício. Confirme o que já está licenciado antes de comprar: novos empreendimentos turísticos isolados são hoje muito limitados em Melides.


A que distância fica Melides de Lisboa?

Cerca de uma hora e meia de carro, consoante o trânsito.


Este artigo é informação geral e não substitui aconselhamento jurídico ou urbanístico. Fontes: R. Carvalho Ferreira, dissertação de mestrado, ISCTE-IUL (a partir de Seixas, 1999); Jornal Económico, 8 de dezembro de 2018; ECO, 14 de novembro de 2019; Município de Grândola, Aviso n.º 1869/2025/2, Diário da República, 21 de janeiro de 2025; DGT, termos de referência da alteração ao PDM de Grândola (2021); APA, lagoa de Melides (2019); RTP, 9 de fevereiro de 2026; Arquitectura Viva; Dezeen (2010, 2013). Fotografias: Wiseguys Properties.

 
 
 
bottom of page