Mitra e báculo: o priorado barroco de Vila Boa do Bispo
Updated: 2 days ago
Arcos de granito, aves azuis e brancas e uma igreja vestida de ouro.
O mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo foi fundado por volta do ano 1000, numa história de batalhas e bispos contada na primeira parte desta série. A partir do século XII pertenceu aos cónegos regrantes de Santo Agostinho, padres que viviam em comunidade sob uma regra. A casa era um priorado, governado por priores, e tornou-se rica o bastante para se reconstruir na linguagem do barroco.

Priores de mitra
Os cónegos estão documentados em Vila Boa em 1143. Em 1144, o papa Lúcio II autorizou os priores a usar mitra e, em 1153, o papa Anastácio IV concedeu-lhes o báculo, privilégios normalmente reservados a bispos e abades. Em 1297, o papa Bonifácio VIII confirmou a Regra de Santo Agostinho na casa. Em 1320, quando se lançou uma taxa papal para a guerra contra os mouros, o mosteiro foi avaliado em 1.500 libras, um valor alto para a região.
A partir de 1475, o priorado passou ao regime de comenda, com as rendas entregues a abades comendatários que ali não viviam. A reforma chegou no fim do século XVI: em 1593, Vila Boa entrou na Congregação de Santa Cruz de Coimbra, a grande casa agostinha onde está sepultado D. Afonso Henriques.
A reforma trouxe dinheiro, e o dinheiro trouxe o barroco.
Uma casa barroca em torno do claustro
Entre 1599 e 1686, cartelas datadas registam uma longa campanha que transformou o mosteiro românico. As obras da casa conventual terminaram em 1678, data inscrita no portal principal. A planta é quadrangular, em torno do claustro, em granito rebocado e caiado. O claustro tem dois pisos divididos por um friso: arcos de volta perfeita sobre colunas toscanas em baixo, janelas de peitoril saliente em cima, tetos de madeira em caixotões nas galerias e um chafariz ao centro.

Nas paredes das galerias sobrevivem fragmentos de pintura mural, entre eles uma cartela com o busto de um bispo. Em 1997, os serviços nacionais de monumentos propuseram a sua conservação, juntamente com os azulejos do refeitório.

O refeitório e as suas aves
O refeitório, onde os cónegos comiam em silêncio enquanto um deles lia em voz alta, está revestido a painéis de azulejo azul e branco com cartelas, motivos vegetais e aves. Junto a uma escadaria de granito, um tanque de pedra recebe a água de uma bica esculpida em máscara grotesca; noutro ponto, um lavabo encostado a um painel de azulejo lembra o lavar das mãos antes das refeições.


Silêncio à mesa, aves nas paredes.
Uma igreja vestida de ouro
Os cónegos refizeram também a igreja. Em 1700 encomendaram três retábulos ao entalhador Manuel Ferreira de Figueiredo e, em 1740, a capela-mor foi revestida a azulejo. Em 2012, obras de conservação na abóbada da capela-mor revelaram pinturas murais do século XVII. Uma passagem a norte ainda liga a casa conventual a um camarote barroco com grade de madeira, de onde se via a igreja sem ser visto.


A igreja de Santa Maria continua a ser a igreja paroquial e Monumento Nacional, e não faz parte da venda. A história da casa depois de 1834, quando os cónegos saíram, conta-se na terceira parte desta série. A antiga casa conventual está à venda através da Wiseguys Properties: veja o mosteiro perto do Porto.
Perguntas frequentes
Quem viveu no mosteiro de Vila Boa do Bispo?
Cónegos regrantes de Santo Agostinho, documentados a partir de 1143. Desde 1593, a casa pertenceu à Congregação de Santa Cruz de Coimbra.
Quando foi a transformação barroca?
Sobretudo entre 1599 e 1686. As obras da casa conventual terminaram em 1678, data inscrita no portal principal.
O que se vê no refeitório?
Painéis de azulejo azul e branco com cartelas, motivos vegetais e aves.
O que se descobriu em 2012?
Pinturas murais do século XVII na abóbada da capela-mor da igreja, reveladas durante obras de conservação.
A igreja faz parte da venda?
Não. A igreja continua a ser a igreja paroquial e Monumento Nacional. Só a antiga casa conventual e o terreno estão à venda.
Para ler a seguir: Imóvel classificado: o que muda na venda e na compra.
Fontes: SIPA, Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo; Património Cultural, Mosteiro de Vila Boa do Bispo; Rota do Românico, Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo; Wikipédia, Igreja de Santa Maria (Vila Boa do Bispo). Fotografias: Wiseguys Properties.
