Palácio dos Mellos Josés: uma casa senhorial rococó em Elvas
Updated: 2 days ago
Elvas foi construída para resistir. Na Rua de São Francisco, alguém construiu para ser visto.
Elvas é famosa pelo que mantém à distância: o maior sistema de fortificações abaluartadas de fosso seco do mundo, dois fortes nas colinas em redor, um aqueduto feito para sobreviver a um cerco. No início da Rua de São Francisco, dentro das muralhas, ergue-se uma casa senhorial que fala outra língua: mármore, ferro forjado, uma coroa e uma águia. Elvas chamou-lhe sempre o palácio dos Senhores Melos Josés.

Uma fachada que assina o nome
Dois pisos e uma hierarquia clara entre eles. O rés-do-chão é de pedra, pesado e almofadado, feito para portas e carruagens. Por cima ergue-se o andar nobre, onde as janelas crescem e a pedra começa a mover-se: molduras de mármore que se enrolam no remate, conchas e flores-de-lis nos frontões de esquina, pilastras desenhadas a branco sobre o ocre.
Ao centro, tudo converge. Uma varanda abaulada de ferro forjado avança sobre a rua. Por cima, um frontão triangular guarda uma águia de asas entreabertas. E acima da águia, num remate de volutas recortado contra o céu, um escudo coroado ostenta as armas dos Melos: uma cruz entre besantes.

Na esquina, onde as duas fachadas se encontram, uma cartela esculpida junta duas iniciais entrelaçadas e uma data: 1760. É a assinatura da casa, e a única data que ela dá.
Quem foi A M, a pedra não diz.
1760: arquitetura rococó numa praça de guerra
1760 situa a casa no reinado de D. José I, cinco anos depois do terramoto que arrasou Lisboa, nos anos em que o Marquês de Pombal governava o reino. Em Elvas diz-se muitas vezes "pombalino", mas isto não é a arquitetura sóbria e racional da Baixa reconstruída. É o barroco tardio a tornar-se rococó: ornamento que ondula em vez de marchar, ferro que se enfuna, uma fachada que pede para ser lida da rua, devagar.
Era também uma cidade em paz com as suas muralhas. As grandes fortificações tinham sido iniciadas em 1643, durante a Guerra da Restauração; poucos anos depois desta casa começaria a construção de um novo forte no monte da Graça, concluído em 1792. As famílias de militares viviam entre os baluartes e, a meio do século XVIII, algumas tinham meios para construir assim.


Os Melos e Lacerdas de Elvas
Uma genealogia da família, os Melo e Lacerda de Brederode, abre o capítulo que lhes dedica com uma fotografia desta mesma casa, legendada «o palacete dos Senhores Melos Josés na rua de São Francisco, em Elvas». O título do capítulo diz o resto: uma família de militares com morgados no Alentejo.
Os apelidos vêm de um casamento celebrado em Estremoz em 1632. Luís de Macedo e Lacerda (1603–1675), natural de Olivença, herdara do pai o ofício de tabelião do público judicial da vila. Serviu D. Francisco de Melo e Bragança, da casa dos Marqueses de Ferreira, foi feito fidalgo da Casa Real por alvará de 1649 e distinguiu-se na batalha das Linhas de Elvas, a 14 de janeiro de 1659, quando o Conde de Cantanhede rompeu o cerco espanhol à praça. A Coroa recompensou-o com uma tença.
A noiva, D. Guiomar de Melo (1616–1679), trouxe o outro apelido e uma história mais antiga. O pai, Rui de Brito do Carvalhal, fora cativo em Alcácer-Quibir e tornou-se fidalgo da Casa de Bragança e vedor da Fazenda do duque que viria a ser D. João IV. A mãe, D. Vicência de Melo, era morgada de Aguilhão, no Alandroal.
Sob estes nomes corria ainda outra linha. Por varonia, o ramo de Elvas descendia de um casal seiscentista de Castelo de Vide, Tomás Rodrigues Ramos e Maria Rodrigues, pais de um riquíssimo cidadão daquela vila, João Nunes Ramos, e parentes de um Francisco Xavier Ramos que fez vida no Brasil na primeira metade do século XVIII. Velhos nomes militares, terra alentejana e dinheiro do império: os ingredientes habituais de uma casa como esta.
«Elvas foi construída para resistir. As suas casas, para serem vistas.»
A linhagem manteve-se. O Anuário da Nobreza de Portugal regista os «Mello e Lacerda de Brederode, de Elvas», e a vocação militar atravessou o século XIX: António Xavier de Melo Lacerda e Brederode, nascido a 22 de fevereiro de 1829, foi aluno do Colégio Militar e consta do Arquivo Histórico Militar como coronel.
Pelo portal adentro

Lá dentro, a casa muda de registo. Um curto lanço de degraus de mármore sobe da porta da rua até um arco de pedra raiada; para lá dele, a escadaria nobre sobe sob uma bandeira de vidro gravado, com balaustrada de ferro fundido. As paredes são almofadadas em molduras de estuque, cor de damasco.
O andar nobre abre com o salão principal: três janelas para a rua, um soalho de tábua larga, um lustre de cristal e, acima de tudo, o teto.

O estuque é a segunda assinatura da casa: folhas de acanto a enrolar-se ao longo de uma sanca funda, grinaldas e rosas em painéis rebaixados, mísulas em fila ao longo da cornija. Tal como o ferro da escadaria, parece pertencer a uma campanha posterior, já oitocentista, cada geração a deixar a sua marca sobre a anterior.

Uma casa de 1760, acabada por todos os que nela viveram depois.
A casa senhorial hoje

O Palácio dos Mellos Josés tem cerca de 1.463 m², 41 divisões e dez casas de banho, no centro histórico de Elvas, Património Mundial da UNESCO desde 2012. Está à venda através da Wiseguys Properties: veja o Palácio dos Mellos Josés. Na mesma cidade, o Journal contou também a história da Villa Justa, o Mistress's Palace.
Perguntas frequentes
O que é o Palácio dos Mellos Josés, em Elvas?
Uma casa senhorial do século XVIII no início da Rua de São Francisco, no centro histórico de Elvas. Uma cartela na esquina tem a data de 1760, e uma genealogia da família Melo e Lacerda reprodu-la como o palacete dos «Senhores Melos Josés».
De quem é o brasão da fachada?
Um escudo coroado com as armas dos Melos, uma cruz entre besantes, num remate de volutas sobre o frontão central. Uma águia de asas entreabertas ocupa o frontão por baixo.
Qual é o estilo arquitetónico do palácio?
Barroco tardio e rococó, do reinado de D. José I (1750–1777): molduras de mármore recortadas, conchas e flores-de-lis, varanda abaulada de ferro forjado. Os tetos em estuque do interior parecem ser obra posterior, do século XIX.
Quem eram os Melo e Lacerda de Elvas?
Uma família de militares com morgados no Alentejo. Os apelidos vêm de Luís de Macedo e Lacerda e D. Guiomar de Melo, casados em Estremoz em 1632; Luís combateu nas Linhas de Elvas em 1659.
O Palácio dos Mellos Josés está à venda?
Sim, através da Wiseguys Properties.
Para ler a seguir: Imóvel classificado: o que muda na venda e na compra e Azulejos portugueses: um guia, de Sintra ao Metro de Lisboa.
Fontes: Melo e Lacerda de Brederode, genealogia da família, p. 124; Anuário da Nobreza de Portugal; registo do Colégio Militar; Arquivo Histórico Militar; Centro do Património Mundial da UNESCO, Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e as suas Fortificações (2012). Fotografia do palácio: Wiseguys Properties. Wiseguys Properties, AMI 23109 · info@wgpadvisors.com
