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O teatro que Garrett pediu: o Teatro Portalegrense

3 days ago
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Um pano que subiu pela primeira vez em 1858, e uma cidade que quis o seu próprio palco.


No centro histórico de Portalegre, no Largo Visconde de Cidrais, uma fachada clara coroada por um frontão triangular esconde um dos mais antigos teatros sobreviventes do país. Por trás das janelas de sacada em arco há uma ferradura de camarotes em três ordens, estuques dourados e um teto pintado de nuvens e figuras. É o Teatro Portalegrense, o primeiro teatro construído de raiz na cidade.


Sala do Teatro Portalegrense com três ordens de camarotes, cortinas vermelhas e teto pintado
A sala: três ordens de camarotes em torno do palco.

A ideia de Garrett: um teatro em cada cidade

Na década de 1830, o escritor Almeida Garrett foi encarregado pelo governo liberal de reformar o teatro português. O seu trabalho levou ao teatro nacional de Lisboa, o Teatro Nacional D. Maria II, inaugurado em 1846, e a uma ideia que se espalhou pelo país: cada cidade importante merecia uma verdadeira sala de espetáculos.


Retrato de Almeida Garrett por Guglielmi
Almeida Garrett, cuja campanha por um teatro nacional chegou à província.

Portalegre aceitou o desafio. Em 1850 formou-se uma sociedade por ações para construir e explorar o primeiro teatro da cidade. A primeira pedra foi lançada a 14 de julho de 1854, com projeto dirigido por José de Sousa Larcher, e a 20 de junho de 1858 a sala abriu ao público com uma peça do próprio Garrett: O Alfageme de Santarém, drama histórico.


A peça de Garrett inaugurou a casa que ele, de certo modo, tinha pedido.


Uma ferradura de camarotes

O edifício é um volume compacto, com frontão e janelas em arco no andar nobre. Lá dentro, a sala segue o modelo italiano: três ordens de camarotes curvam-se em torno da plateia, emolduradas por estuques dourados, sob um teto pintado. Em 1886, novas obras acrescentaram três frisas, renovaram os forros e estofos dos camarotes e substituíram parte da pintura do teto. Seguiram-se obras em 1906 e 1913, e em 1906 realizaram-se aqui as primeiras sessões de cinematógrafo.


Ordens de camarotes com balaústres torneados e cortinas vermelhas no Teatro Portalegrense
As ordens de camarotes, com balaústres e cortinas vermelhas.

Um pintor de Portalegre

O teto da sala é atribuído a Benvindo Ceia (1870–1941), pintor decorador natural de Portalegre. Formado na Escola de Belas-Artes de Lisboa com mestres como Silva Porto e Veloso Salgado, pintou para o Theatro Circo de Braga e para o teatro de Estremoz, para o Palácio de São Bento e para cafés lisboetas como o Martinho da Arcada, e ganhou uma medalha de ouro na Exposição Ibero-Americana de Sevilha, em 1929.


Retrato do pintor Benvindo Ceia
Benvindo Ceia, pintor decorador, nascido em Portalegre em 1870.

Teto pintado do Teatro Portalegrense com figuras entre nuvens e enrolamentos dourados
O teto pintado da sala.

Nuvens e enrolamentos dourados sobre a plateia, pintados por um filho da cidade.


Os alunos de Régio e uma última vénia

O poeta e dramaturgo José Régio ensinou durante mais de três décadas no Liceu de Portalegre. Em 1935, os seus finalistas estrearam aqui a peça Sonho de uma Véspera de Exame, de Régio; entre os jovens atores estava Artur Semedo, que viria a ser ator e realizador de cinema.


Retrato do escritor José Régio
José Régio, poeta, dramaturgo e professor em Portalegre.

Na década de 1940, o edifício estava em mau estado, e a Inspeção-Geral dos Espetáculos só o deixou funcionar com fortes restrições. Ainda assim, em 1985, segundo relatos locais, a grande atriz Amélia Rey Colaço subiu aqui a um palco pela última vez, em El-Rei Sebastião, de Régio, numa homenagem ao dramaturgo, falecido em 1969. Foi o último espetáculo do teatro.


Boca de cena e teto pintado do Teatro Portalegrense vistos dos camarotes
O palco, visto dos camarotes.

O teatro hoje

Fechado há décadas, o Teatro Portalegrense foi depois usado como ringue de patinagem e como sede de um clube desportivo. Fica dentro da zona de proteção do património de Portalegre e tem mais de 2.000 m² em vários pisos: a sala, um salão com janelas em arco no andar nobre, átrios e escadarias. Espera restauro e um novo uso, sujeito às aprovações necessárias.


Salão com janelas em arco no andar nobre do Teatro Portalegrense
O salão do andar nobre, por trás das janelas em arco.

Fachada do Teatro Portalegrense com frontão triangular, janelas de sacada em arco e três portas
A fachada, coroada pelo frontão.

O teatro está à venda através da Wiseguys Properties: veja o teatro histórico em Portalegre. Para outra história do distrito de Portalegre, leia sobre a casa onde Nisa borda.


Perguntas frequentes

Quando abriu o Teatro Portalegrense?

A primeira pedra foi lançada a 14 de julho de 1854 e o teatro abriu a 20 de junho de 1858, com O Alfageme de Santarém, de Almeida Garrett.


Quem o projetou?

O projeto foi dirigido por José de Sousa Larcher. O teatro foi construído por uma sociedade por ações formada em 1850.


Quem pintou o teto?

O teto é atribuído a Benvindo Ceia (1870–1941), pintor decorador natural de Portalegre.


Qual a ligação a José Régio?

Em 1935, alunos do Liceu de Portalegre, onde Régio ensinava, estrearam ali uma peça sua, e em 1985 representou-se ali El-Rei Sebastião em sua memória.


O teatro está à venda?

Sim, através da Wiseguys Properties. Qualquer restauro ou novo uso está sujeito às aprovações necessárias.



Fontes: e-cultura, Evocação dos Teatros de Portalegre; Musorbis, Portalegre e os seus auditórios; Observador (2019); ZAP (2022); Cinemas do Paraíso (2024); Montalvo e as Ciências do Nosso Tempo, Benvindo Ceia (2010). Fotografias do teatro: Wiseguys Properties. Retrato de Garrett segundo Guglielmi.

 
 
 
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