Raul Lino reconstrói uma quinta joanina: a casa portuguesa no Lumiar
Updated: 2 days ago
O profeta da nova casa portuguesa, chamado a salvar uma casa antiga.
Em 1920, Raul Lino era o arquiteto mais eloquente do país, o homem que passara duas décadas a perguntar como devia ser uma casa portuguesa. Nesse ano, a família Roxo fez-lhe uma pergunta diferente: o que fazer com uma casa velha. A casa era a Quinta de São Sebastião, no Paço do Lumiar, uma quinta do tempo de D. João V que já conhecera melhores dias.

Um arquiteto entre Windsor e o Alentejo
Lino nasceu em Lisboa em 1879 e estudou fora: na escola em Windsor, depois na Alemanha, no atelier do arquiteto Albrecht Haupt, estudioso da arquitetura do Renascimento em Portugal. Voltou com uma formação europeia e uma pergunta. Percorrendo o país, a começar pelo Alentejo, estudou a forma como as casas portuguesas comuns se relacionavam com o sol, o declive e a rua.

A resposta tornou-se doutrina. Em A Nossa Casa (1918), depois em A Casa Portuguesa (1929) e Casas Portuguesas (1933), defendeu casas enraizadas no clima e nos costumes: beirados fundos, paredes caiadas, alpendres, azulejo, jardins que pertencem à casa. A sua obra, mais de setecentos projetos, da Casa dos Patudos, em Alpiarça, ao Teatro Tivoli, em Lisboa, passou o argumento à pedra.
Uma doutrina de beirados, alpendres e azulejo.
Reconstruir, não inventar
No Lumiar, a encomenda era outra. O inventário do património regista que Lino dirigiu em 1920 importantes obras de reconstrução da casa, para a família Roxo, numa quinta setecentista com armas reais na fachada posterior e um jardim de azulejo. Para um arquiteto que escrevia sobre a casa portuguesa, era a oportunidade de trabalhar na coisa verdadeira.

A casa lê-se hoje como uma composição longa e serena: paredes ocre, cantarias, janelas altas, um pórtico para o jardim e, ao centro de uma das frentes, um painel de azulejo figurativo entre duas janelas em arco. No interior, uma escadaria de pedra sobe entre azulejos azuis e brancos; os tetos são pintados; uma das salas é forrada a madeira entalhada.

Quanto disto é mão de Lino, e quanto é do século XVIII, é pergunta para os arquivos: o espólio de Lino está na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, e o restauro de 1965 acrescentou a sua própria camada. O que o registo diz é que a casa entrou na sua vida moderna pelas obras de 1920.
Para Lino, uma casa não era um estilo. Era uma maneira de viver num lugar.
A casa hoje
Meio século depois de Lino, o jardim foi redesenhado pelo arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles: essa história está aqui. A história anterior da quinta conta-se em Antes de Lino, e o bairro em Paço do Lumiar, uma aldeia de quintas.
O palácio está à venda através da Wiseguys Properties: veja Garden of Eden.
Perguntas frequentes
Quem foi Raul Lino?
Arquiteto português (Lisboa, 1879–1974), formado em Inglaterra e na Alemanha, conhecido pelos escritos e pela obra sobre a casa portuguesa, como A Nossa Casa (1918) e Casas Portuguesas (1933).
O que fez Raul Lino no Paço do Lumiar?
Em 1920 dirigiu importantes obras de reconstrução na Quinta de São Sebastião, para a família Roxo, segundo o inventário do património.
O que é a 'casa portuguesa'?
A ideia de Lino de uma casa enraizada no clima e nos costumes portugueses, com beirados, alpendres, azulejo e jardim, defendida nos seus livros e construída em centenas de projetos.
Onde está o espólio de Raul Lino?
Na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
A casa está à venda?
Sim, através da Wiseguys Properties, com o nome Garden of Eden.
Para ler a seguir: Reabilitação de casas antigas: paredes velhas, regras novas e Bairros de Lisboa: onde viver, lidos pela arquitetura.
Fontes: SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, "Jardins da Quinta de São Sebastião" (ficha 10421); Jardins Históricos de Portugal; Rota do Paço do Lumiar, Centro Cultural da Ponte (2025). Biblioteca de Arte, Fundação Calouste Gulbenkian. Fotografia: Wiseguys Properties; retrato de Raul Lino: Arquivo Histórico de Almada.
