1830, escrito na chaminé: uma casa senhorial em Reguengos de Monsaraz
A data não está sobre a porta. Está na chaminé.
No centro de Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, uma casa senhorial fecha-se em torno de um pátio. A chaminé mais alta, quadrada e coroada de pequenas ameias à maneira alentejana, tem um número gravado no reboco: 1830. Dois anos depois, um estudante de Direito da região desembarcaria no Mindelo com o exército liberal. Dez anos depois, a aldeia à volta da casa seria vila.

Uma aldeia que se fez vila
Em 1830, Reguengos era ainda uma aldeia do termo de Monsaraz, a vila amuralhada no alto, uns quinze quilómetros a nascente. As lutas liberais mudaram isso. Em 1838, a sede do concelho desceu de Monsaraz e uma lei de 29 de fevereiro de 1840 fez de Reguengos a cabeça do município. No mesmo ano, D. Maria II deu foral à nova vila, lembrando o serviço dos seus moradores à causa da liberdade.
O dinheiro vinha da terra. No século XIX, uma fábrica de lanifícios fundada por José Mendes Papança deu à vila a primeira indústria, e a divisão dos antigos arados dos foreiros da Casa de Bragança abriu caminho à vinha. No fim do século, o vinho tinha feito a prosperidade de Reguengos.

Um liberal, um proprietário e um republicano, no mesmo quarteirão.
Os Rojão, os Papança e os Gião
A casa abre para um largo com o nome de um José Maria Rojão, e os registos antigos dão vizinhos Rojão de vários lados. O apelido pertence à história liberal da vila. José Maria Rojão, nascido em Mourão em 1801, estudava Direito em Coimbra quando rebentou a guerra civil. Alistou-se no Batalhão Académico, desembarcou no Mindelo a 8 de julho de 1832 como um dos 7.500 bravos, chegou a major e recebeu a Torre e Espada. Fixou-se em Reguengos e presidiu à Câmara nos anos 1840. Casou com Maria Jacinta Cordeiro Papança na capela privada do pai dela.
O irmão dela, Manuel Augusto Mendes Papança, foi presidente da Câmara de Reguengos e um dos seus grandes beneméritos. Em 1871 foi padrinho de um rapaz chamado Francisco de Salles Fernandes Gião. Gião fez-se engenheiro e proprietário, presidiu ao Sindicato Agrícola e ao Grémio da Lavoura e, em outubro de 1910, foi o primeiro presidente da Câmara depois da implantação da República. No início dos anos 2000, um projeto para fazer desta casa um hotel rural chamava-lhe Casa Gião.
Outro Gião levou o nome da vila muito mais longe. O físico António Gião, nascido em Reguengos em 1906, numa casa da Rua Nova, estudou em Estrasburgo, trabalhou por toda a Europa e ensinou mecânica e astronomia em Lisboa. Uma carta de Albert Einstein chegou-lhe um dia a casa, em Reguengos.
Três famílias, três revoluções, um largo.
Tetos pintados e um oratório
Por dentro, a casa é uma sequência de salas altas que abrem umas para as outras. Os tetos são pintados: grinaldas, rosetas e fitas sobre fundos claros, e aves por todo o lado, em medalhões, em cartelas de canto, pousadas no centro de uma abóbada. As paredes têm painéis pintados sobre uma barra de azulejo azul e branco. Alguns pavimentos são de tijoleira em espinha; outros de soalho.


Ao fundo de uma enfiada de salas, um pequeno altar ergue-se entre colunas torsas salomónicas: o oratório doméstico, onde uma família da época rezava sem sair de casa. No andar de cima, as lareiras são emolduradas por azulejo azul e branco. Sobre os telhados erguem-se as altas chaminés alentejanas, entre elas a da data.



Três edifícios e um pátio
A propriedade é formada por três edifícios contíguos. A casa principal tem dois pisos, com vinte e seis compartimentos no registo predial. Uma ala térrea, a que se chega pelo jardim, junta mais doze divisões e já fez parte da mesma casa. Um terceiro edifício de 180 m², registado como armazém de vinhos, fecha o conjunto. Ao todo são 1.441 m² de área construída em torno de 477 m² de pátio e jardim.


A casa foi vendida através da Wiseguys Properties: veja a sua página. Para outra casa alentejana no Journal, leia sobre o Palácio dos Mellos Josés, em Elvas, ou sobre a casa onde Nisa borda.
Perguntas frequentes
Quando foi construída a casa?
A data de 1830 está gravada numa das suas chaminés.
Onde fica?
No centro de Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, a uns quinze quilómetros da vila medieval de Monsaraz.
O que inclui a propriedade?
Três edifícios contíguos: uma casa principal de dois pisos, uma ala térrea com doze divisões e um armazém de vinhos de 180 m², com 1.441 m² de área construída e 477 m² de pátio e jardim.
Quem foram os Gião de Reguengos?
Uma família local de proprietários. Francisco de Salles Fernandes Gião (1871–1955) foi o primeiro presidente da Câmara depois da República de 1910; o físico António Gião (1906–1969) também nasceu em Reguengos.
A casa está à venda?
Não. Foi vendida através da Wiseguys Properties.
Para ler a seguir: Monte alentejano: comprar ou vender uma quinta no Alentejo.
Fontes: Arquivo Municipal de Reguengos de Monsaraz (José Maria Rojão; Francisco de Salles Fernandes Gião; António Gião); Junta de Freguesia de Reguengos de Monsaraz, História; Gazeta de Física. Fotografias: Wiseguys Properties.
