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Janelas Verdes, 1905: o mostruário de um fabricante de azulejos, na Lapa

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Updated: 2 days ago

Eça de Queirós deu às Janelas Verdes uma casa imaginária. Em 1905, um fabricante de azulejos deu-lhe uma verdadeira.


Na Rua das Janelas Verdes, a poucas portas do Museu Nacional de Arte Antiga, há uma fachada que não se cala. Faixas de azulejo relevado Arte Nova correm pelos quatro pisos, e uma placa da Câmara de Lisboa explica porquê: um edifício de 1905, projeto do arquiteto Artur Júlio Machado, exemplar único pela azulejaria de Viriato Silva. A placa omite o melhor. O homem que o mandou construir era o dono da fábrica de azulejos a poucos passos dali.


Fachada com azulejos Arte Nova do prédio de 1905 na Rua das Janelas Verdes, 70–78, Lisboa
A fachada dos números 70 a 78: faixas de azulejo relevado Arte Nova ao longo de quatro pisos.

Átrio com azulejos Arte Nova do prédio de 1905 na Rua das Janelas Verdes, Lapa, Lisboa
O átrio: um teto de azulejo pintado em molduras brancas e um silhar de azulejo relevado amarelo que sobe e desce como uma sebe.

A fábrica ao lado

A Fábrica Constância nasceu em agosto de 1836 numa parte do antigo Convento dos Marianos, na encosta das Janelas Verdes, e ganhou o nome em 1842. No fim da década de 1880 pertencia a um só homem, Miguel José Sequeira. Fazia faiança e azulejo, e entre as suas obras contam-se os azulejos relevados do Palácio da Pena, em Sintra.


Em 1905, Sequeira construiu na Rua das Janelas Verdes, nos números 70 a 78, à vista dos seus fornos. O resultado tem quatro pisos, fachada tripartida e corpo central saliente, e veste a produção da fábrica como um mostruário: faixas de azulejo relevado com motivos vegetalistas e geométricos, desenhadas por Viriato Silva, o artista da casa que mais tarde partilharia a administração da fábrica.


Placa da Câmara Municipal de Lisboa no edifício Arte Nova da Rua das Janelas Verdes
A placa da Câmara Municipal de Lisboa na fachada: arquiteto Artur Júlio Machado, 1905; azulejos de Viriato Silva.

A placa que a Câmara Municipal de Lisboa colocou na fachada diz:

EDIFÍCIO ARTE NOVA (SÉCULO XX) · IMÓVEL DE INTERESSE PÚBLICO

«Projecto do Arqt. Artur Júlio Machado de 1905. Exemplar único dada a ornamentação azulejar com motivos vegetalistas Arte Nova, da autoria de Viriato Silva.»


Uma fachada como catálogo. Uma escada como sala de exposição.



«A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete.» Eça de Queirós, Os Maias (1888)


Dentro do mostruário

O azulejo não fica à porta. No átrio, um silhar de azulejo relevado amarelo sobe a parede em cristas recortadas de flores estilizadas, e o chão repete uma treliça amarela e verde. O teto é uma pintura em azulejo, embutida em molduras de estuque branco.


Teto de azulejo Arte Nova com uma alegoria da cerâmica, Rua das Janelas Verdes, Lisboa
Ao centro do teto do átrio, uma figura entre nuvens segura uma paleta de pintor e um pote azul e branco: a arte do ceramista pintada no seu próprio suporte.

Olhe-se para cima e o edifício explica-se. Ao centro do teto, uma figura flutua entre nuvens e fitas com uma paleta de pintor, os pincéis e um pote azul e branco. À volta, borboletas, flores vermelhas e margaridas brancas correm em cercaduras Arte Nova. Na casa de um fabricante de azulejos, a musa é a cerâmica.


Escada revestida de azulejo geométrico azul, verde e ocre, Rua das Janelas Verdes
Na escada, outro registo: azulejo geométrico em azul, verde e ocre, à maneira dos padrões hispano-mouriscos da velha Lisboa.

A escada muda de tom. Aqui as paredes vestem azulejo geométrico, flores estreladas em azul, verde e ocre dentro de uma cercadura em dente de serra, uma homenagem aos padrões hispano-mouriscos que Lisboa aplica nas paredes desde o século XVI. O prédio mostra as duas coisas ao mesmo tempo: o estilo novo e o antigo.


O último piso

O apartamento ocupa o topo do edifício: cerca de 210 m², cinco quartos, três casas de banho e um sótão que pode ser um sexto quarto, um estúdio ou um refúgio. Das janelas, a vista desce a encosta da Lapa até ao Tejo.


Sala com silhar e teto de azulejo no apartamento Janelas Verdes 1905, Lapa
Uma das salas principais, revestida de azulejo até à altura do silhar.

O azulejo entra em casa. Nas salas principais, silhares de girassóis pintados, folhas verdes e fundos beringela correm sobre um rodapé de azulejo relevado cor de mel, e os tetos são de azulejo preso numa grelha de madeira.


Silhar de azulejos Arte Nova com girassóis, Rua das Janelas Verdes, Lisboa
Girassóis em verde, ocre e beringela: azulejo Arte Nova de perto.

Até a cozinha é decorada, com paredes de azulejo e um teto de azulejo decorativo, e uma lavandaria ao lado. O resto da planta, generosa e de pé-direito alto, pode ser repensado para uma vida mais contemporânea sem tocar no que a torna rara.


Cozinha com azulejos e teto de azulejo decorativo no apartamento Janelas Verdes 1905
A cozinha: azulejo nas paredes e no teto.

Restaurar os azulejos. Mudar tudo o resto.


Uma morada classificada

O edifício é Imóvel de Interesse Público desde 1983, e os seus azulejos já tinham sido inventariados em 1977. Fica dentro da zona de proteção do Museu Nacional de Arte Antiga, o velho Museu das Janelas Verdes, a poucos minutos a pé do rio. A Fábrica Constância, vizinha e razão de ser do prédio, fechou em novembro de 2001.


O apartamento hoje

O apartamento do último piso do Janelas Verdes 1905 está à venda através da Wiseguys Properties: veja o Janelas Verdes 1905. Para outra casa onde o ofício de uma família ficou escrito nas paredes, leia A casa do Comendador, sobre a Quinta do Quintão.


Perguntas frequentes

Quem projetou o prédio da Rua das Janelas Verdes, 70–78?

Segundo a placa da Câmara Municipal de Lisboa na fachada, o arquiteto Artur Júlio Machado, em 1905. A decoração em azulejo Arte Nova é de Viriato Silva.


Quem o mandou construir?

Miguel José Sequeira, dono da Fábrica Constância, a fábrica de faiança e azulejo fundada em 1836 no antigo Convento dos Marianos, às Janelas Verdes.


O edifício é classificado?

Sim. É Imóvel de Interesse Público desde 1983, e os seus azulejos foram inventariados em 1977.


O que é o azulejo relevado Arte Nova?

Azulejo moldado em relevo e vidrado em várias cores, com os motivos vegetalistas e florais da Arte Nova. As fachadas de Lisboa do início do século XX usaram-no em faixas e frisos, como aqui.


O apartamento está à venda?

Sim. O apartamento do último piso, com cinco quartos e sótão, está à venda através da Wiseguys Properties.



Fontes: Património Cultural, ficha 73650 (Decreto n.º 8/83); placa da Câmara Municipal de Lisboa na fachada; M. Meneses Pereira, "Memórias do fazer azulejo na Fábrica Constância", AzLab #33; Eça de Queirós, Os Maias (1888). Fotografia: Wiseguys Properties. Wiseguys Properties, AMI 23109 · info@wgpadvisors.com

 
 
 
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