A fábrica e o pátio — a Casa da Fábrica do Atelier Bugio
Atualizado: 23/10
Da rua, ninguém diria que está ali. Uma parede branca, uma fila de empenas em dente de serra, uma rua que acaba.
Depois, acima dos telhados, uma chaminé de tijolo. Pertenceu a uma antiga torrefação de café, uma das últimas oficinas a ocupar os intervalos de Arroios, e está hoje no centro de uma casa-pátio no coração de Lisboa, desenhada por João Favila Menezes e pelo Atelier Bugio.
O bairro foi feito de barro antes de ser feito de qualquer outra coisa. A Rua das Olarias deve o nome às suas olarias, e durante séculos o barro desceu do Monte de São Gens para pequenos fornos na encosta. No século XIX, ali perto, no Largo do Intendente, a olaria de António da Costa Lamego deu origem à fábrica Viúva Lamego, com a fachada ainda coberta pelos azulejos atribuídos a Ferreira das Tabuletas. A indústria continuou a chegar até ao início do século XX: oficinas, armazéns, chaminés apertadas entre as casas antigas.

Favila Menezes, nascido em Coimbra em 1966 e professor na Faculdade de Arquitetura de Lisboa, dirige um atelier fundado na Madeira em 1980. Em Lisboa, a obra mais conhecida do Bugio é a que torna a cidade mais fácil de subir: as escadas rolantes do Martim Moniz em direção ao castelo e o funicular da Mouraria até ao miradouro da Graça, a poucos minutos a pé daqui. Em 2026, a revista portuguesa AMAG dedicou-lhe o seu número 12.
Não se deu um jardim à casa. A casa foi construída à volta dele.
Pouco foi demolido. O pátio foi rebaixado um piso abaixo da rua e deixado a céu aberto, e a chaminé ergue-se dele entre uma árvore, bananeiras e um longo banco em pedra lioz rosa. A luz entra por cima e vai descendo: nos quartos, por vãos fundos forrados a madeira; nas salas, por paredes de vidro que correm por inteiro; no spa, por estreitos poços de luz.

Entra-se pelo piso dos quartos. São três, cada um com casa de banho própria, e em dois deles uma escada dobrada em sucupira sobe a um mezanino sob a cobertura de betão, onde as empenas se tornam claraboias. Por baixo fica o piso do jardim e a vida da casa: cozinha, sala de jantar, duas longas galerias de um e outro lado do pátio, uma sala forrada a estantes. Mais abaixo ainda, um spa com tanque de imersão em aço e banho turco, em pavimento de lioz.

A paleta é curta, e nada nela está ali para decorar. A sucupira, madeira brasileira densa que ganha cor de mel, nos soalhos, nas escadas e nos ripados. O betão tal como saiu da cofragem, com o veio das tábuas ainda impresso nos tetos. A terracota feita à mão no Algarve, assente em espinha. Azulejo branco da Azulima e vermelho da Viúva Lamego, a fábrica que nasceu a poucas ruas dali. O barro voltou ao bairro.

E depois o lioz, a pedra real de Lisboa, o calcário do Mosteiro dos Jerónimos, cheio de conchas fósseis com cerca de 120 milhões de anos. Há pedra lioz que ganha um rosa suave, e foi essa a escolhida aqui, para os lavatórios, o banco do pátio e o chão do spa. Poucos materiais dizem Lisboa com tanta simplicidade.

Reabilitar uma antiga torrefação é sobretudo decidir o que se guarda. Aqui guardou-se a chaminé, as empenas e a escala de um lugar onde em tempos se torrava café. Tudo o resto, a luz, o jardim, o silêncio, é novo. Quatrocentos e vinte metros quadrados escondem-se atrás de uma frente que não é mais larga do que a das vizinhas, e essa é exatamente a boa educação que Arroios pede.

A Casa da Fábrica está à venda através da Wiseguys Properties. Ver a casa — info@wgpadvisors.com
Fontes: Metalocus, sobre o Atelier Bugio e João Favila Menezes; AMAG n.º 12 (2026), Favila Menezes; ISCTE, sobre as olarias de Arroios e o Monte de São Gens; União Internacional das Ciências Geológicas, o lioz como Global Heritage Stone Resource; Atelier Bugio, telas finais, janeiro de 2026.




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