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Portalegre, a cidade das tapeçarias

16/10
7 min de leitura

Poucas cidades deram o nome a um ponto.


Portalegre fica no sopé da Serra de São Mamede, no Norte Alentejano, a pouco mais de duas horas de carro de Lisboa e a cerca de 70 km de Badajoz. É cidade desde 1550, um ano depois de criada a diocese, e enriqueceu com a lã e depois com a cortiça. No século XX deu o nome a uma maneira de tecer: o ponto de Portalegre, em que pintores de Júlio Pomar a Jean Lurçat viram a sua obra passada a lã. Este é um retrato da cidade tal como é hoje, com os seus conventos, as fábricas que se tornaram museus, o seu poeta, a serra e os vinhos, e do que significa viver aqui.


Um ponto chamado Portalegre

A história começa com um insucesso. Em 1946, Guy Fino e Manuel Celestino Peixeiro quiseram recuperar em Portalegre o fabrico de tapetes de nó, e o negócio não rendia. O pai de Manuel Celestino, Manuel do Carmo Peixeiro, propôs outra coisa: tapeçaria mural, tecida com um ponto que inventara anos antes, quando estudava têxteis em Roubaix, no norte de França. A primeira tapeçaria saiu dos teares em 1948, a partir de um cartão de João Tavares. Os primeiros pintores foram portugueses: Júlio Pomar, Maria Keil, Guilherme Camarinha, Renato Torres, Lima de Freitas.


A técnica é lenta e exata. A tecedeira trabalha em ponto simples e cobre cada fio com um nó de lã atado à mão, de modo que o avesso repete a imagem com a mesma definição do direito. A história publicada pela Manufatura conta que o pintor francês Jean Lurçat, renovador da tapeçaria, a visitou em 1958. Perante uma tapeçaria sua tecida em França e uma cópia feita em Portalegre, tomou a cópia pelo original. Desde então, e até à sua morte, muitas das suas tapeçarias foram tecidas em Portalegre.


Mais de duzentos artistas trabalharam desde então com a Manufatura, entre eles Almada Negreiros, Vieira da Silva, Lourdes Castro, Le Corbusier e Joana Vasconcelos. As suas tapeçarias estão na Gulbenkian, no Tribunal de Justiça da União Europeia, no Luxemburgo, e no Supremo Tribunal de Nova Gales do Sul, na Austrália. Na cidade, o Museu da Tapeçaria de Portalegre Guy Fino abriu em 2001 na antiga residência dos Castel-Branco, na Rua da Figueira, com boa parte do acervo doado pela Manufatura. Em 2024, a Câmara anunciou que preparava uma candidatura do ponto de Portalegre a património cultural imaterial.


Em Portalegre, a cópia passou pelo original.


A Sé, os conventos e os azulejos

A Sé começou a construir-se em 1556, no lugar da antiga igreja de Santa Maria do Castelo, e levou cerca de dois séculos a concluir. A fachada maneirista ergue-se em três registos; os três portais barrocos do piso térreo foram acrescentados no século XVIII. Lá dentro, o retábulo-mor foi entalhado por Gaspar Coelho entre 1592 e 1595, e a sacristia guarda os azulejos setecentistas, com cenas da vida da Virgem e da Fuga para o Egito, por trás de arcazes joaninos em pau-santo.


O convento cisterciense de São Bernardo foi fundado em 1518 por D. Jorge de Melo, bispo da Guarda. O seu túmulo, esculpido por Nicolau Chanterene em mármore de Estremoz, tem mais de doze metros de altura. Os azulejos do convento vão do século XV ao XVIII, quando se assentaram na igreja os painéis com a vida de São Bernardo; o edifício está hoje ocupado pela GNR. Foi Teresa Saporiti, artista e investigadora que fotografou e inventariou durante décadas a azulejaria de todo o distrito, quem estudou estes azulejos. Para a história mais larga, leia o nosso guia do azulejo português.


Lã, cortiça e as chaminés da Robinson

A indústria de Portalegre instalou-se nas casas religiosas. No último quartel do século XVIII, acrescentou-se ao colégio jesuíta de São Sebastião um edifício industrial para a Real Fábrica de Lanifícios; o conjunto foi reabilitado a partir de um projeto de 2006 e acolhe hoje os Paços do Concelho e serviços municipais.


O convento de São Francisco, fundado no início do século XIII, teve outro destino. Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, uma fábrica de cortiça instalou-se na zona conventual. Em 1848 foi comprada por George William Robinson, cuja firma de família em Halifax, no Yorkshire, já importava cortiça portuguesa. A fábrica Robinson acrescentou uma fachada industrial e as chaminés altas que ainda marcam o horizonte da cidade, e só fechou em 2009. A Fundação Robinson, criada em 2005, guarda hoje o conjunto e o arquivo, e a igreja do convento acolhe hoje eventos como a mostra de vinhos da cidade.


A casa de Régio e o teatro

O poeta José Régio, nascido em Vila do Conde em 1901, foi professor no liceu de Portalegre durante mais de três décadas. Alugou um quarto numa pensão, foi comprando as divisões uma a uma até a casa ser sua e encheu-a de escultura, faiança, mobiliário e, sobretudo, de Cristos. Em 1965 vendeu a coleção à Câmara, com a condição de a casa ser restaurada como museu. A Casa-Museu José Régio abriu em 1971, dois anos depois da sua morte.


Biblioteca com estantes do chão ao teto numa casa reabilitada no centro histórico de Portalegre
Uma biblioteca no centro histórico.

Em 1935, os alunos de Régio levaram à cena uma peça sua no Teatro Portalegrense, o primeiro teatro da cidade, inaugurado em 1858 com uma peça de Almeida Garrett. Contámos a sua história em o Teatro Portalegrense, de Garrett a Régio. A ferradura de camarotes, em três ordens sob um teto pintado, continua lá, à espera de um novo uso.


Ordens de camarotes na sala do Teatro Portalegrense, em Portalegre
Os camarotes do Teatro Portalegrense.

A serra, o vinho e os arredores

A Serra de São Mamede fecha o horizonte a norte e a nascente. O parque natural, criado em 1989, tem cerca de 560 km² e sobe aos 1.025 metros, o que faz deste canto do Alentejo um lugar mais verde, mais fresco e mais chuvoso do que a planície.


Portalegre é uma das oito sub-regiões da DOC Alentejo, e a que é conhecida pelos vinhos de altitude. Todos os anos, em dezembro, a cidade organiza a mostra Vinhos de Altitude na igreja do antigo convento de São Francisco; a edição de 2025 reuniu cerca de vinte produtores e mais de cem vinhos. Entre as quintas, a família Symington comprou em 2017 a Quinta da Fonte Souto: 42 hectares de vinha entre os 490 e os 550 metros, em xisto e granito, dentro do parque natural. Na serra produzem também, entre outros, a Tapada do Chaves e Susana Esteban.


Jardim murado com caminhos de pedra numa casa do centro histórico de Portalegre
Um jardim murado no centro de Portalegre.

A menos de meia hora ficam três passeios obrigatórios. Marvão, muralhada, a cerca de 860 metros, olha para Espanha por cima da fronteira. Castelo de Vide guarda uma sinagoga do século XIV, hoje um pequeno museu da sua história judaica. Abaixo de Marvão, em São Salvador da Aramenha, estão as ruínas de Ammaia, cidade romana atestada como municipium no ano de 166 e monumento nacional desde 1949. Mais longe, no mesmo distrito, Nisa tem o seu próprio ofício: leia sobre a casa das bordadeiras de Nisa.


Viver em Portalegre

O concelho tem cerca de 22 mil habitantes: o suficiente para ser cidade, poucos o bastante para que tudo se faça a pé no centro histórico. Desde agosto de 2026, o antigo Instituto Politécnico é a Universidade Politécnica de Portalegre, com escolas em Portalegre e Elvas. O hospital distrital, o Hospital Dr. José Maria Grande, abriu em junho de 2026 uma nova unidade de cuidados intensivos polivalente, e está previsto para 2029 um campus da saúde ao lado. Lisboa fica a pouco mais de duas horas de carro, Badajoz a cerca de 70 km, Madrid a cerca de 460 km. Estradas, ferrovia e nova indústria estão a mudar a região: veja Portalegre nos próximos anos.


Uma casa no centro histórico

Uma maneira de viver aqui é atrás de um muro de jardim. The Great Green House, no centro histórico, é uma casa reabilitada com quatro quartos, três em suite, uma biblioteca com estantes do chão ao teto, uma cozinha em mármore de Estremoz e um jardim murado de 605 m² com caminhos de pedra, uma fonte escultórica e piscina. Em 2025, a Câmara certificou que a reabilitação, dentro da Área de Reabilitação Urbana de Portalegre, deixou o prédio em estado de conservação excelente. A casa pertenceu, pelo menos desde 1991 e até à sua morte, a Teresa Saporiti, cuja história contamos em a casa de Teresa Saporiti.


Cadeira de praia listrada à sombra das árvores no jardim de uma casa em Portalegre
Uma cadeira de lona sob a folhagem.

A Wiseguys Properties tem à venda The Great Green House e, na mesma cidade, o Teatro Portalegrense. Para comparar, leia o que um milhão de euros compra fora de Lisboa. Se tem uma casa antiga em Portalegre ou no Alto Alentejo e pensa vender, fale connosco.


Perguntas frequentes

Onde fica Portalegre?

No Norte Alentejano, no sopé da Serra de São Mamede, perto da fronteira com Espanha. É a capital do distrito com o mesmo nome.


O que visitar em Portalegre?

O Museu da Tapeçaria Guy Fino, a Sé, a Casa-Museu José Régio e a antiga fábrica Robinson. Depois, a Serra de São Mamede, Marvão, Castelo de Vide e as ruínas romanas de Ammaia.


O que é o ponto de Portalegre?

Um ponto de tapeçaria inventado por Manuel do Carmo Peixeiro, em que cada fio é coberto por um nó de lã atado à mão. A Manufatura de Tapeçarias de Portalegre usa-o desde 1948.


A que distância fica Portalegre de Lisboa?

A pouco mais de duas horas de carro. Badajoz fica a cerca de 70 km e Madrid a cerca de 460 km.


Que vinhos se fazem em Portalegre?

Portalegre é uma sub-região da DOC Alentejo, conhecida pelos vinhos de altitude das encostas da Serra de São Mamede, onde há vinhas acima dos 500 metros.


Fontes: Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, história; Homo Faber, Museu da Tapeçaria de Portalegre Guy Fino; Portugal Global, julho de 2024; Infopédia, Sé Catedral de Portalegre e Convento de S. Bernardo; Fundação Robinson, Publicações n.º 6 (2008); História e Economia (Reynolds e Robinson); Arquiespaço, Colégio de São Sebastião; Lusa, 2019 (José Régio); Decreto-Lei n.º 121/89; Forbes Portugal, dezembro de 2025; Symington Family Estates; Universidade de Coimbra (Ammaia); Observador, 19 de junho e 27 de julho de 2026; Governo de Portugal, 31 de dezembro de 2025. Fotografias: Wiseguys Properties.

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